Mulher-céu, a criadora do mundo

"Talvez em um mundo onde às culturas originárias não tivessem sofrido o genocidio, hoje a Mulher-céu estaria recebendo oferendas, às florestas estariam preservadas e não teria espécies de animais em extinção. Talvez o diferente fosse aceito de coração aberto, e o mundo nunca tivesse se polarizado em “certo” ou “errado”."
Por Carolina Manara
Sep 16, 2022

“De acordo com os Haudenosaunee, a Mulher Céu caiu por um buraco no céu. Em sua queda, a Mulher Céu caiu através das nuvens e do ar em direção às águas abaixo. Durante sua queda, os pássaros puderam ver essa criatura em queda e ver que ela não podia voar. Eles foram até ela e a ajudaram a desacelerar sua queda até as águas abaixo dela. Os pássaros disseram à Tartaruga que ela precisava de um lugar para pousar, já que ela não tinha nadadeiras. A Tartaruga emergiu, subindo à superfície das águas de modo que a Mulher Céu pudesse pousar em suas costas. Uma vez sobre a Tartaruga, a Mulher Céu e a Tartaruga começaram a formar a Terra, e a terra é uma extensão de seus corpos.”

WATTS-POWLESS, 2013

Vanessa Watts-Powless é doutora e socióloga da tribo Mohawk e Anishnaabe do Clã Urso, no Canadá.

Nesse artigo intitulado “Indigenous Place-Thought and Agency Amongst Humans and Non Humans (First Woman and Sky Woman Go On a European World Tour!)”, publicado em 2013, na revista Decolonization Indigeneity, Education & Society.

Watts-Powless debate – através de sua perspectiva indigena – como os processos de colonização romperam com as concepções de mundo indigena, desconectando do humano os princípios fundadores dessas culturas, como a terra, o território, o feminino, os animais, a paisagem e a espiritualidade, rotulando essas cosmovisões como mitologias e impondo como verdade uma única vertente de pensamento, baseado nas religiões cristãs, que se sustentam de uma ideia patriarcal de mundo e subjuga até hoje as crenças das sociedades originárias.

Powless, além de nos mostrar o quanto o humano e o não humano constrói juntos a ideia de sociedade dos povos originários, ela também nos ensina que a história de criação do mundo, na explicação indigena, é construída a partir de uma visão do que hoje consideramos feminino. Os povos originários são uma extensão da paisagem, dos animais e do território em que vivem. E todas essas existências são extensões da Mulher-céu, a mãe criadora, cada ser é uma parte que compõem um todo. Desta forma, todos são enxergados como iguais. Não existe uma ideia hierarquizada na relação homem-natureza, e sim um tratamento de profundo respeito e reconhecimento da fauna e flora como parte fundadora da sua própria existência.

A visão dos povos originários que Powless nos elucida, é fascinante e totalmente oposta da estrutura social da qual esses nativos foram submetidos com as invasões dos países europeus.

O pensamento cristão utilizou de um discurso patriarcal que ao contrário da crença indigena, suprime a ideia do feminino como criador, retirando a mulher de um papel fundamental na criação do mundo e o colocando em segundo plano como um pecado. “A criação de deus que deu errado”. “A que provou o fruto proibido”.

E assim, partindo desse discurso, surgiu o primeiro pecado da mulher dentro do cristianismo, e a partir de então, tudo ligado ao feminino foi perseguido, oprimido e queimado. Os portugueses em território brasileiro, mataram e escravizaram quase todas as populações indígenas, os que sobraram, tiveram suas identidades e suas crenças removidas, foram ensinados a acreditar em um único deus, a imagem e semelhança do homem caucasiano.

A história, infelizmente, foi a mesma em todo continente Americano. No entanto, a supressão da mulher não ficou somente em territórios distantes da Europa. Todo indivíduo que se entendesse como feminino no mundo, passou a ser controlado, calado, mantido em jaula.

Hoje estamos inseridos em uma sociedade aos moldes cristãos, partindo da mais particular crença de um único indivíduo, até um aspecto mais amplo, como às leis que regem a sociedade como um todo.

Tudo possui uma ideia de deus único como verdade, como certo, como justo e, principalmente, como homem.

O exemplo de homem se tornou tão virtuoso, tão certo, que ao nos referirmos a humanidade, utilizamos as palavras “o homem”, jamais “a mulher”. A ideia é tão fortemente enraizada que ”The Bookish Man”, jamais seria “The Bookish Woman”, mesmo que a maioria das colunistas sejam mulheres.

E essa ideia parte de uma estrutura social pré-estabelecida, ao qual nem ao menos notamos que reproduzimos, já que todos nós somos criados e ensinados a pensar como tal.

Talvez em um mundo onde às culturas originárias não tivessem sofrido o genocidio, hoje a Mulher-céu estaria recebendo oferendas, às florestas estariam preservadas e não teria espécies de animais em extinção. Talvez o diferente fosse aceito de coração aberto, e o mundo nunca tivesse se polarizado em “certo” ou “errado”.

Talvez Vanessa Watts-Powless, não precisaria ter criado artigos onde defende que a visão de mundo indigena não é um mito, mas sim uma verdade para aqueles que compartilham dessa visão. Talvez, o mundo soubesse e acreditasse também. Talvez, a mulher fosse vista com respeito, com igualdade.

Talvez.
Mas só talvez.

Te instigo, caro leitor, a ler os artigos dessa incrível socióloga, e expandir sua visão de mundo, desafiando-o a decolonizar seu olhar.

Carolina Manara

Carolina Manara

Antropóloga pela FURG.
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